Fim da escala 6×1 também é questão de saúde

Por Jorge Solla

Ao longo de mais de quatro décadas atuando como médico e gestor do Sistema Único de Saúde, aprendi uma lição fundamental: a maior parte das doenças que tratamos nos hospitais começa muito antes da porta de entrada da unidade de saúde. Começa nas condições de vida e de trabalho.

É por isso que o debate sobre o fim da escala 6×1 não pode ser tratado apenas como uma pauta trabalhista. Embora a dimensão laboral seja essencial nesta pauta, trata-se também de uma questão de saúde pública. E, na esteira disso, de desigualdades sociais estruturantes.

Em 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgaram um estudo global demonstrando que jornadas superiores a 55 horas semanais estão associadas a um aumento de 35% no risco de acidente vascular cerebral (AVC) e de 17% no risco de morte por doença isquêmica do coração, quando comparadas a jornadas de 35 a 40 horas semanais. Estamos falando de centenas de milhares de mortes prematuras no mundo relacionadas diretamente ao excesso de trabalho.

Mesmo quando a carga horária formal não ultrapassa esse limite, a lógica de seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso produz desgaste acumulado, especialmente em contextos de transporte precário, múltiplos vínculos empregatícios e dupla jornada doméstica — realidade que atinge majoritariamente mulheres e trabalhadores pobres e negros que vivem nas periferias, subúrbios e favelas.

No Brasil, segundo dados do IBGE, a população negra e as mulheres são a maioria dos trabalhadores dos setores de comércio e serviços, onde a escala 6×1 é mais comum. Isso significa que o impacto do desgaste não é neutro. Ao contrário, ele recai sobre quem já enfrenta maior vulnerabilidade social.

A ciência também é clara quanto aos efeitos sobre a saúde mental dessas condições laborais. Jornadas prolongadas aumentam a incidência de ansiedade, depressão e síndrome de burnout. No Brasil, os transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho segundo dados da Previdência Social. Não estamos falando de casos isolados, mas de um padrão epidemiológico.

Quem absorve essa conta? O SUS.

Crises hipertensivas, infartos, transtornos de ansiedade, dores osteomusculares, acidentes de trabalho e afastamentos previdenciários pressionam o sistema público de saúde. O custo do adoecimento relacionado ao trabalho não aparece apenas na folha das empresas — ele aparece nas emergências, nas filas de atendimento e nos gastos públicos com procedimentos de alta complexidade que poderiam ser evitados.

Como sanitarista, sei que as condições de trabalho são determinantes sociais da saúde. Assim como saneamento reduz doenças infecciosas, políticas de proteção ao trabalhador reduzem doenças crônicas e sofrimento mental. Saúde não é apenas assistência, é também prevenção – cuidado que acaba sendo “luxo” para trabalhadores que trabalham 6×1 e, além de viver as condições precárias de trabalho, sequer possuem tempo para atendimento nas unidades básicas de saúde, onde a maioria das comorbidades deveriam ser controladas e evitadas antes mesmo de se instalarem.

Há ainda um argumento econômico frequentemente ignorado nesta discussão. Países que avançaram na redução da jornada de trabalho registraram aumento de produtividade por hora trabalhada, menor número de faltas e atrasos e redução de afastamentos por adoecimento.

A manutenção de jornadas extenuantes como regra revela um modelo de desenvolvimento que transfere o custo do crescimento para o corpo do trabalhador. É a desigualdade se expressando em hipertensão, ansiedade e esgotamento.

Defender o fim da escala 6×1 não significa ignorar a complexidade econômica do país, mas reconhecer que crescimento sustentável exige trabalhadores saudáveis, compreendendo que o direito ao descanso é parte da política de prevenção em saúde.

O Brasil já avançou quando aprendeu, lá atrás, que vacinação em massa salva vidas, tornando-se referência mundial em imunização. Já avançou também quando estruturou o SUS como política universal. Agora é hora de avançar também quando o tema é saúde do trabalhador, alterando as regras trabalhistas para proteger vidas.

O direito ao descanso adequado não pode ser visto como privilégio. Trata-se de um instrumento de redução de desigualdade, de proteção à vida e de fortalecimento do Sistema Único de Saúde.

Se queremos um país mais produtivo, mais justo e mais saudável, precisamos começar reconhecendo que trabalhar até adoecer não pode ser normal. O custo dessa equação é alto demais para o SUS – o que ainda precisamos estimar financeiramente –, mas a aprovação de uma mudança pode representar, a longo prazo, resultados positivos para a saúde pública.